Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio

 © 1995 por Walter Vieira S. Junior

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Conceitos preliminares: temporal: ser que teve um começo e terá um fim; eviterno: ser que teve um começo, mas não terá um fim; eterno: ser que não teve começo e nem terá fim.

Éskaton (Extremo)

Escatologia é a doutrina das coisas últimas. Distingue-se a escatologia pessoal (morte, juízo, purgatório, paraíso e inferno) da escatologia universal (retorno de Xto, ressurreição dos mortos, juízo final e fim do mundo). A história da fé judaico-cristã é desde o início uma história de esperança. Esta esperança vem de Deus e se fundamenta em experiências históricas.

Apokálypsis (Revelação)

Como sinais do gênero literário da apocalíptica temos o obscurecer do sol, as estrelas caindo do céu, as trombetas do juízo final, os túmulos se abrindo e os mortos ressuscitando, o livro no qual estão escritos os pecados da humanidade etc. A apocalíptica (200 aC até 100 dC) foi para o judaísmo motivo de extremo pessimismo. Catástrofes cósmicas e astronômicas, a imagem do Filho do Homem sobre as nuvens com poder e glória, são tipicamente apocalípticas.

Parusia (Volta de Cristo)

A invocação aramaica MARANATHA, traduzida em geral por "Vem Senhor Jesus" encontra-se em 1Cor 16,22. A esperança do cumprimento da soberania de Deus na comunidade pós-pascal vem expressa como esperança da vinda de Cristo na parusia. Parusia significa presença, vinda, advento. Fala-se em parusia como volta de Cristo. Ela significa a manifestação definitiva da presença de Xto, sua vinda na glória.

Os primeiros cristãos imaginavam uma volta iminente devido à passagem: "Não passará esta geração antes que tudo isso aconteça" (Mc 13, 30). A idéia do juízo ligado à punição fez com que se rezasse para que Cristo demorasse na sua volta. O seu retorno será a realização da história; o tempo intermediário é o tempo da Igreja. Escatologia Presêntica: O juízo acontece não só no último dia, mas agora. "Quem crê já está julgado; já passou da morte para a vida." (Lc 3, 18; 5, 24) Com a dilatação da parusia, a fé é preservada do perigo de refugiar-se em uma esperança que desaparece num futuro distante. Escatologia Futúrica: "Virá a hora em que todos os que estão mortos nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do Homem." (Lc 5, 28s)

A fé na parusia comporta 2 aspectos:

1. Futúrico: Virá o dia em que Xto reinará e o mundo em que vivemos será transformado, será julgado.

2. Presêntico: Devemos ter presentes as possibilidades de encontrar Xto cada dia da nossa vida.

Os dois aspectos são inseparáveis. Assim, a esperança na parusia não é destruída e se antecipa nas realizações do tempo, não se orientando exclusivamente para um futuro indefinido.

 A Ressurreição dos Mortos

Em quase todo o AT não se apresenta a idéia de Ressurreição. A existência depois da morte parece uma não existência. Os mortos são sombra que jazem nas trevas O reino dos mortos (šeol) é a terra dos esquecidos (Cf. Sl 88, 11s). A experiência de que os maus tem sucesso, enquanto os bons nem sempre, promoveu a fé na ressurreição dos mortos e em uma retribuição depois da morte. A fé na ressurreição se fundamenta sobre a fé na fidelidade divina que não permite que se percam os que morrem na fidelidade à sua lei.

Enquanto os fariseus sustentam a ressurreição dos mortos, os saduceus a refutam. Jesus, como os fariseus, compartilha da convicção de que no fim dos tempos os mortos ressuscitarão. Jesus diz que quando os homens ressuscitarem serão como os anjos e não se casarão ( ® Ver disputa com os saduceus em Mc 12, 18-27).

Na ressurreição os homens serão transformados. A fé na ressurreição dos mortos no fim dos tempos é uma conseqüência da fé na fidelidade de Deus e no Seu poder. Paulo (ex-fariseu) tem familiaridade com a esperança na ressurreição. Esta passa a um segundo plano no início de sua pregação, pois está à espera da parusia. Não se pode acreditar na ressurreição de Jesus e ao mesmo tempo negar a ressurreição dos mortos (1Cor 15, 12s).

Após a ressurreição haverá uma existência corpórea totalmente diversa daquilo que hoje se pode imaginar e que conserva uma relação de identidade com a nossa existência corpórea atual. É necessário que este corpo corruptível e mortal se revista de incorruptibilidade e imortalidade.O xsmo. se caracteriza não pela fé na imortalidade da alma, mas pela fé na ressurreição dos corpos. Cremos na ressurreição da carne e que o corpo é templo do Espírito Santo. Por isso, não se deve ter desprezo pelo corpo e pela matéria.

Propriedades dos corpos gloriosos (provenientes da harmonia entre a matéria e espírito): Ver S. Th. Sup. Quaestio LXXXII.

Subtilitas: prontidão absoluta em que o corpo servirá a alma. Inclui-se o poder de penetração na matéria.

Impassibilitas: Não se poderá sofrer qualquer moléstia ou ser susceptível de dor.

Claritas: Fulgor que brilhará nos corpos gloriosos. Tal fulgor refletirá no corpo a glória da alma. Será também proporcional à santidade: diferirá de justo a justo.

Agilitas: Propriedade pela qual os corpos gloriosos se poderão locomover com a presteza do pensamento, sem cansaço nem obstáculo.

A Morte

A morte implica uma decisão radical e definitiva para a realização plenificadora ou para a absoluta frustração humana. Há comportamentos diversos diante da morte na cultura contemporânea; sua eliminação prática através do "american way of dying". A morte questiona a nossa esperança. Há 3 afirmações clássicas sobre a morte: todos os homens devem morrer; a morte é o fim do estado de peregrinação; a morte é conseqüência do pecado. Pode-se dizer que não existe a morte em si e sim o homem como ser para a morte.

Não se pode falar de um retorno do além, mas um retorno de uma situação-limite. Embora a morte pareça triste como um fim de festa, este fim não significa negatividade. O homem morre em prestação (ano, mês, dia, minuto, segundo). Deus não fez a morte (Cf. Sb 1, 13). A vitória sobre a morte não significa a sua eliminação e sim a sua transformação. O homem paradisíaco deveria experimentar a morte na alegria. O pecado consiste na falta de confiança e de amor. Ele insere na morte um aspecto de dor, de tristeza. Se a semente não morrer (para a sua potencialidade) não pode viver (para atualizar sua potencialidade) e produzir frutos ® paradoxo do Xsmo. Cristo é a morte da morte. Se a semente não morre para o seu "ser semente", não poderá se transformar em árvore.

 

O Juízo

É uma fé ligada à parusia de Cristo. Devemos esperar a justiça de Deus. Diante dela a culpa é desmascarada. Na pregação de Jesus, as ameaças apocalípticas estão presentes: choro, ranger de dentes etc. Entretanto, Jesus convida a não perder o banquete. A pregação de Jesus, é mais um convite que ameaça.

A história do mundo será decidida por Jesus. O futuro será aquele mundo de que Ele falou e cujos valores proclamou. O juiz é o que afirma: "Não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo" (Jo 12, 47). "A palavra que proclamei o julgará no último dia" (Jo 12, 48). Diante do olhar de Cristo aparece quem eu sou verdadeiramente. É a hora da verdade, a hora do juízo. Nestes termos se pode falar em juízo como auto-juízo. No encontro com aquele que é a Verdade, a verdade da minha vida vem à tona.

Pelo fato de se constatar uma distância entre a morte do indivíduo e o juízo no último dia, veio espontaneamente o pensamento de um encontro com Xto antes do juízo universal. A alma é julgada imediatamente após a morte. Visto que o tempo não está presente na outra vida (post-mortem), o juízo particular = juízo universal. O homem, portanto, não será julgado duas vezes. O juízo pessoal e (ao mesmo tempo) universal são dois aspectos de um único evento, somente didaticamente considerados um após o outro.

O Purgatório

A fé cristã mantém a esperança da purificação. "Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade." (1Tim 2, 4) "O purgatório existe e as almas aí mantidas podem ser ajudadas pelo sufrágio dos fiéis e de modo particular com o santo sacrifício do altar." (DS 983) O purgatório é um evento de purificação e não exprime o aspecto espacial. Ninguém convive com Deus se não for totalmente de Deus.

O purgatório significa a possibilidade graciosa que Deus concede de poder amadurecer totalmente. Podemos pedir a Deus que Ele acelere o processo de maturação e leve o homem a deixar-se compenetrar pela graça divina. O purgatório pode iniciar-se ainda na terra, através de sofrimentos, doenças, frustrações, dramas existenciais etc.

As Indulgências

As indulgências são um sacramental (de instituição eclesiástica). Infelizmente, na história da Igreja, entraram interesses simoníacos através de prelados inescrupulosos. As penas reduzidas pelas indulgências são as penas do purgatório em virtude das graças contidas no tesouro da Igreja. No sangue de Cristo e dos mártires castigados por seus pecados acima do que mereciam, se forma um tesouro no depósito da Igreja. Ela pode comunicar a indulgência a quem desejar. O pecado não permanece sem castigo, pois já foi expiado pelo sangue de Cristo e dos mártires.

Com o perdão, o pecado é eliminado, mas não se dissolve a estrutura criada por ele, a qual permanece e pode ser origem de outros pecados. Indulgência é sinônimo de comunhão dos santos, na qual todo bem, toda graça e virtudes dos homens se intercomunicam numa profunda comunhão. As indulgências não visam aliviar ou substituir a penitência pessoal do homem. Visam alcançar aquilo que a penitência intenciona: a purificação e o pleno amadurecimento.

O Inferno

Jesus alerta sobre a possibilidade de se perder eternamente; utiliza figuras que nos fazem pensar em tormentos. É como ser excluído de uma festa. As penas do inferno consistem na privação da visão de Deus. Trata-se de um estado de infelicidade em que a própria pessoa se colocou com o seu comportamento pecaminoso. A pessoa nesse estado é incapaz de amar a Deus, ao próximo e a si mesmo. Tal situação comporta uma dor inimaginável. Inferno = estado de solidão infinita e de incomunicabilidade. O inferno não é uma criação de Deus, mas do homem. É um estado e não um lugar. É o estado de alguém que disse um não tão decisivo que não quer e nem pode mais dizer um sim.

Cristo conhece esta possibilidade do homem fracassar em seu projeto. Quando o homem se petrifica no seu mal e morre, entra num estado de frustração absoluta de sua existência. A Igreja rejeitou a teoria de que no final todos seriam reconciliados *ApokatavstasiV = restauração cósmica, defendida por Orígenes. Em estado de inferno, o homem chamado à liberdade, vive num cárcere; chamado à luz, vive nas trevas; chamado a viver na casa paterna, vive fora dela; chamado à comunhão, vive na solidão (auto-exclusão); chamado à plenitude, vive na não-realização. Quando nos fechamos à proposta de Cristo já nos condenamos.

A má compreensão do que seja o inferno, levaria a rejeitá-lo em favor do reencarnacionismo. O inferno é um estado de alma, no qual o indivíduo se projeta por dizer não a Deus. Após a morte tal pessoa é respeitada em sua opção definitiva, mas não pode deixar de reconhecer que Deus é o Sumo Bem que continua a amá-la irreversivelmente. Se Deus desviasse do réprobo o seu amor, este não sofreria o inferno, mas Deus não deixa de amar, porque não pode se contradizer. O inferno, longe de contradizer o amor de Deus, decorre da grandeza divina desse amor.

O Céu (Visio Dei)

A felicidade total é a visio Dei. É a absoluta realização humana. É a comunhão com Deus "face a face" (Cf. 1Cor 13, 12). O céu deve ser entendido como pura transcendência. Quando dizemos que Jesus subiu aos céus, não queremos dizer que Ele empreendeu uma viagem sideral ou espacial. O céu da fé não possui tempo, direção, distância ou espaço. Céu é sinônimo de Deus. É a situação de todos os que se encontram no amor de Deus.

Nossa linguagem reflete categorias do mundo em que vivemos. Deus é bom, mas não da forma pela qual entendemos a bondade. É bom de forma infinita, absoluta, transcendental (® via affirmationis, negationis e transcendentiae). Devemos recorrer à via analógica na ineliminável obscuridade da fé. Conceitos/imagens que destacam seus aspectos: Visão beatífica (2Cor 3, 18); nome novo (Ap 2, 17 - conhecer o nome = intimidade); núpcias (Mt 22, 1-10); banquete; paraíso (= reino de Deus - Ap 2, 7); cidade nova (Ap 21, 9-22 - nova Jerusalém na qual reinará justiça e paz); o enxugar as lágrimas dos olhos (Ap 21, 4 - não haverá sofrimento nem preocupação); a vitória/prêmio (Tg 1, 12; Ap 3, 5); a vida eterna (símbolo que sintetiza todo o conteúdo da fé cristã); e o eterno repouso (Ap 14, 13).

"Recebei como herança o reino que vos foi preparado desde o início do mundo." (Mt 25, 34) Cristo é o verdadeiro e*scaton do homem e a vida eterna é reinar com Ele e participar da Sua glória. "Eis que Eu faço novas todas as coisas." (Ap 21, 5-6) A vida eterna é o pléroma (plenitude) do Xto ressuscitado. Quem tem a fé e a graça entra em comunhão com Ele e já possui a vida eterna (® dialética do já e do ainda não como "pano de fundo" de toda a escatologia). A vida é o dom mais excelente do ser humano. Não escolhi viver e, contudo, existo. Viver é pura gratuidade.

O sonho do homem é ser eterno. Quando o homem é admitido na eternidade de Deus, os seus limites desaparecem. "Aeternitas est interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio." ® A eternidade é a posse perfeita e associada a uma vida interminável (Boésio) "Felizes os que morrem no Senhor." (Ap 14, 13). Se devemos repousar eternamente, contemplar e adorar a Deus, não será também um tédio eterno? NÃO. Será uma vida de não fazer nada (dolce far niente) e de inatividade. Deus reservará eternas surpresas aos nossos olhos. Deus é inexaurível e eternamente novo. Em estado de céu, todas as nossas possibilidades se realizam plenamente. Será o complexo dos paradoxos: o dinamismo no descanso.

Sempre que aqui na terra fazemos a experiência do bem, da bondade, da amizade, da paz e do amor, estamos vivendo de forma precária uma antecipação do céu. "Deus, enquanto conquistado é o céu, ; enquanto perdido é o inferno; enquanto nos examina é o juízo; enquanto nos purifica é o purgatório." (Balthasar)

 

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